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Mais Palavras?

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A História de Teobaldo Esquizofrênico

Tento fugir dos teus olhos. Não dá. Estou preso neles assim como estou preso nessa cidade quente e úmida. Os fios dos postes se combinam e se entrelaçam me dando a sensação de que estou num grande curral de abominações e solidão. Percebi que eles tem um pouco de cor, os teus olhos negros. Quando eles brilham, tem um pouco de castanho, como se tu tivesses pureza. Acredito em ti nessas tuas falas enobrecidas de orgulho. Mas, perco o foco dos teus olhos, pois percebo que estamos cercados por fios, desses postes. Esses fios pretos, feios, emaranhados, desconexos, chamativos me chamam sempre. Como se tivessem vida própria, e quisessem me falar em uma voz grave como a de Deus: “Tu não vais sair dessa cidade!”. – Vou sim, poste filha da puta – digo entre a sorveteria e a calçada. Tu me olhas estranho, acalme-se. Sou normal.

E continuamos assim caminhando pelas ruas dessa cidade como se não tivessem fronteiras. Eu estava conversando contigo, mas estava mesmo de olhos era nos postes. Teus olhos quase-castanhos são objetos secundários nessa tragédia. Ando olhando pra cima, esses fios formando um ninho de confusão e loucura. A minha mente está emaranhada, tal quando eu era criança. Esses postes me chamam a atenção desde criança mesmo, tive que ir me confessar no padre – “Padre, odeio postes, isso é pecado?” – falei. “Não...” – respondeu-me com a voz rouca.

Sabe... Já são 18:00, e as luzes laranjas desses postes acenderam. Estava atravessando a rua contigo, mas tive que correr e subir na porra daquele poste que queria impedir que viajássemos para a nossa lua de mel. Agarrei-me aos fios e quis arranca-los do painel de controle ou sabe deus o nome daquilo, coisa de má qualidade com certeza. Má qualidade, que me fez levar um choque de mais de 10.000 Volts. Fui ao céu e virei anjo, fui expulso, caí. Fui salvo, só me recordo que tempos depois tu ainda estás aqui comigo. Nessa lua de mel. Tá vendo? Eu sabia que iriamos sair daquela cidade.

“Sim, sim senhor Teobaldo. Agora fique calminho enquanto pego a su... nossa sopa”. – Disse a enfermeira enquanto saia do corredor com a sua ajudante, que na verdade era também amante quando o expediente terminava.  “Esse daí não tem mais jeito” – disse a ajudante, mais baixa e nova. “Não tem mesmo. 22 anos e já está entre os senhores”. 

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