Tento fugir dos teus olhos. Não dá. Estou preso neles assim
como estou preso nessa cidade quente e úmida. Os fios dos postes se combinam e
se entrelaçam me dando a sensação de que estou num grande curral de abominações
e solidão. Percebi que eles tem um pouco de cor, os teus olhos negros. Quando eles brilham, tem um pouco de castanho, como se tu
tivesses pureza. Acredito em ti nessas tuas falas enobrecidas de orgulho. Mas, perco
o foco dos teus olhos, pois percebo que estamos cercados por fios, desses
postes. Esses fios pretos, feios, emaranhados, desconexos, chamativos me chamam
sempre. Como se tivessem vida própria, e quisessem me falar em uma voz grave como a de Deus: “Tu não vais sair dessa cidade!”. – Vou sim, poste filha da puta – digo
entre a sorveteria e a calçada. Tu me olhas estranho, acalme-se. Sou normal.
E continuamos assim caminhando pelas ruas dessa cidade como
se não tivessem fronteiras. Eu estava conversando contigo, mas estava mesmo de
olhos era nos postes. Teus olhos quase-castanhos são objetos secundários nessa
tragédia. Ando olhando pra cima, esses fios formando um ninho de confusão e
loucura. A minha mente está emaranhada, tal quando eu era criança. Esses postes
me chamam a atenção desde criança mesmo, tive que ir me confessar no padre –
“Padre, odeio postes, isso é pecado?” – falei. “Não...” – respondeu-me com a
voz rouca.
Sabe... Já são 18:00, e as luzes laranjas desses
postes acenderam. Estava atravessando a rua
contigo, mas tive que correr e subir na porra daquele poste que queria impedir
que viajássemos para a nossa lua de mel. Agarrei-me aos fios e quis arranca-los
do painel de controle ou sabe deus o nome daquilo, coisa de má qualidade com
certeza. Má qualidade, que me fez levar um choque de mais de 10.000 Volts. Fui
ao céu e virei anjo, fui expulso, caí. Fui salvo, só me recordo que tempos
depois tu ainda estás aqui comigo. Nessa lua de mel. Tá vendo? Eu sabia que
iriamos sair daquela cidade.
“Sim, sim senhor Teobaldo. Agora fique calminho enquanto
pego a su... nossa sopa”. – Disse a enfermeira enquanto saia do corredor com a sua
ajudante, que na verdade era também amante quando o expediente terminava. “Esse daí não tem mais jeito” – disse a
ajudante, mais baixa e nova. “Não tem mesmo. 22 anos e já está entre os
senhores”.